Evoluir ou Degenerar?

“Nativos Americanos e povos indígenas historicamente demonstraram um grande respeito pela Natureza e todas as suas Criações. Os tradicionais líderes cerimoniais Nativos Americanos e os curandeiros (medicine man) ainda se relacionam com o mundo de modo espiritual apesar dos efeitos do genocídio, aculturação e diluição de suas heranças e culturas. Eles veem o mundo como um grande mistério, cheio de mágica, misticismo, desafios e vivacidade. E porque o mundo é vivo ele se comunica conosco. A filosofia antiga e a ideologia dos povos Nativo Americanos nos proveem com uma perspectiva que é criticamente ausente na sociedade moderna, uma visão de mundo que nos lembra que a humanidade não é separada da Natureza, e que tudo que há na Natureza se relaciona conosco. Dentro desse relacionamento universal existe uma linguagem ancestral, uma linguagem que é simbólica, natural, espiritual, e que continua relevante. Os símbolos ancestrais  e seus significados se encontram nos mitos, na literatura, nos rituais, nas cerimônias e nas histórias da Natureza, e que podem ser encontrados nos níveis mais profundos do nosso inconsciente.

Acredito que tenhamos nos tornado dissociados e insensíveis à natureza porque não temos mais mitos, rituais, ou qualquer outra forma de vínculo com a Natureza. Tenho visto isso acontecer com Nativos Americanos que foram removidos de suas terras, culturas e religiões. Pessoas que não criam vínculos com a Natureza por qualquer razão logo se tornam apáticas e até adversárias à Terra. Seus sistemas de valores e ideologias começam a se corromper em relação a vida e ao mundo em que vivemos. 

Algumas pessoas podem até tentar se separar da Natureza ou “se sobrepor” à Ela mentalmente, mas o mero fato de que somos seres humanos e que fazemos parte dessa incrível rede de vida torna todos nós parte da Natureza. Somos todos influenciados e afetados pela Natureza, e em contrapartida nós também influenciamos e afetamos a Natureza, positivamente ou negativamente. Não há escapatória dessa relação mesmo depois ou além da morte porque o nascimento, o crescimento, a velhice e a morte são parte do ciclo normal da vida em Natureza. E o poder da Natureza está envolvido em cada ciclo, em cada estação, em cada direção, no tempo, espaço e domínios geográficos. Os mitos ancestrais e as histórias da Natureza nos ajudam a ensinar esta realidade, enquanto que os rituais e as cerimônias nos proveem com a oportunidade de experimentar e confirmar essas lições.

Os mitos ancestrais e as histórias sobre a Natureza, portanto, nos ensinam sobre o conceitos dos poderes: o que são, de onde vem, o que fazem, e como lidar com eles, ambos no passado e no presente. Com tais conhecimentos vem a expansão da consciência, o desenvolvimento da inteligência e da espiritualidade. Quando começamos a entender esta realidade, nossa ideologia muda porque nosso relacionamento com a Natureza muda, e com essa mudança ganha-se um novo senso de respeito, responsabilidade e reciprocidade. O conceito de conservação e a necessidade de despoluir o meio-ambiente talvez traga adiante um senso de responsabilidade para proteger e preservar a Natureza antes que Ela se torne totalmente poluída, alterada e destruída.”

(Bobby Lake Thom – Spirits of The Earth, Plume Publishing, 1997). 

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No livro mencionado acima o mesmo autor aponta como a destruição e o desrespeito ao planeta afetam a todos nós seres humanos dada a nossa inter-relação com a Natureza. Em tempos de pandemia e desequilíbrio ecológico o distanciamento social nos obriga a olhar para dentro e entender qual é o papel que teremos que exercer individualmente e coletivamente perante a sociedade em que vivemos e o nosso planeta. Não são apenas os nossos hábitos que deverão mudar, e sim como a nossa presença impacta e impactará a Natureza daqui para frente e vise-versa. Neste momento cada um de nós tem uma responsabilidade maior em recriar a roda. Médicos e terapeutas em geral e, em especial, são chamados a liderar esta reascensão da humanidade com positividade, coragem e confiança sabendo que em tempos de transição é sempre possível escolher entre evoluir ou degenerar.

Pessoalmente acredito que estejamos evoluindo de alguma forma. Quando o medo da morte é trazido à superfície temos a oportunidade de enfrentar as nossas dificuldades e ajudar uns aos outros. Acredito que essa literalmente seja a nossa lição-de-casa mais uma vez. Talvez demore anos ou décadas para acomodar essa nova realidade que se anuncia no nosso modo de vida e de trabalho, mas todas estas mudanças são mais do que bem-vindas. Não seria possível evoluir para uma consciência maior ou uma sociedade mais compassiva entre os seres humanos e a Natureza, se não houvesse uma perda significativa da idéia de ‘liberdade de ir e vir’ tal e qual a conhecemos. 

Só agora os governantes começaram a olhar para os mais necessitados economicamente como integrantes da sociedade, então novos hospitais e centros de saúde passaram a ser prioridade. Então só agora médicos, enfermeiras e profissionais da saúde passaram a receber a validação, importância e o respeito que merecem. 

Os aprendizados são muitos e os ganhos com esta crise são ainda mais valiosos. Percebo que apesar do distanciamento físico houve um estreitamento das relações sociais, e mais importante ainda, percebeu-se a importância de algo que já vinha se desfazendo com a tecnologia, o tempo ou a “falta” dele – a importância do contato físico olho no olho, com a presença física (offline), do abraço e do aperto de mão. Por mais que possamos nos comunicar com os nossos familiares e amigos pelas redes sociais, olhar as vias vazias da Itália, e de tantos países, as escolas, aeroportos, clubes e lojas fechadas nos dá a dimensão do espaço que as relações humanas ocupam e de como cada pequeno encontro do dia-a-dia não apenas modifica a paisagem externa, bem como a nossa saúde mental e emocional interna. 

E’ nessas horas que vemos as verdadeiras cores de cada pessoa e onde está sua humanidade. Confesso que não tenho medo do vírus ou o que quer que seja, tenho medo de não aprender a lição que está assinalada a cada um de nós. No vazio que se abre aqui e ali, e refletindo sobre o texto transcrito acima, penso que talvez nossa lição maior venha da reconexão mais profunda entre cada um de nós e com a Natureza, não apenas fisicamente, bem como através do resgate do mito, do ritual, da cerimônia e do aprendizado das histórias ancestrais que concebem a Vida entre todos os seres animados e inanimados como uma gigante teia originalmente tecida por respeito, vivacidade e força.

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